Fungicidas na agricultura: como funciona cada classe e quando usar?

Fungicidas na agricultura

Os fungicidas são os defensivos agrícolas de maior crescimento em valor de mercado no Brasil nas últimas décadas. Isso não é coincidência: o clima tropical brasileiro, com alta umidade e temperaturas elevadas durante boa parte do ano, cria condições altamente favoráveis ao desenvolvimento de doenças fúngicas nas principais culturas do país.

A soja sozinha demanda entre duas e quatro aplicações de fungicida por safra na maioria das regiões produtoras. O café, o trigo, o algodão e as hortaliças têm perfis fitossanitários igualmente exigentes. 

Entender como os fungicidas funcionam, quais são suas classes e por que a rotação entre mecanismos de ação é indispensável é uma competência básica para qualquer técnico ou produtor que queira tomar decisões de manejo com base em critérios.

Como os fungicidas atuam sobre os fungos

Os fungicidas interferem em processos biológicos essenciais para a sobrevivência e reprodução dos fungos. A especificidade desse mecanismo de ação é o que determina tanto a eficácia do produto quanto o risco de desenvolvimento de resistência.

Ação preventiva versus curativa

A distinção entre fungicidas preventivos e curativos é fundamental para o planejamento do manejo:

  • Preventivos: aplicados antes da infecção, criam uma barreira química que impede a germinação dos esporos ou a penetração do fungo nos tecidos vegetais. São mais eficazes e permitem o uso de doses menores.
  • Curativos: aplicados após a infecção inicial, atuam sobre o fungo já estabelecido nos tecidos, interrompendo seu desenvolvimento antes que os sintomas se manifestem completamente.
  • Erradicativos: atuam sobre infecções já estabelecidas com sintomas visíveis. Têm eficácia limitada e exigem doses maiores, sendo menos eficientes economicamente.

Na prática, a maioria dos fungicidas modernos tem ação mista, combinando efeito preventivo e curativo em diferentes proporções dependendo da molécula e da dose utilizada.

Mobilidade no tecido vegetal

Os fungicidas também se diferenciam pela forma como se movem dentro da planta após a absorção:

  • Contato: permanecem na superfície foliar e não são absorvidos pela planta. Protegem apenas os tecidos cobertos pela aplicação.
  • Sistêmicos: absorvidos pela planta e translocados pelos vasos condutores, protegendo tecidos não diretamente atingidos pela aplicação.
  • Mesostêmicos: comportamento intermediário, com distribuição limitada dentro do tecido foliar mas sem translocação sistêmica ampla.

As principais classes de fungicidas e seus mecanismos

O FRAC (Fungicide Resistance Action Committee) classifica os fungicidas em grupos numerados conforme seu sítio de ação. Essa classificação é a referência para o planejamento da rotação e para o manejo de resistência.

Triazóis (FRAC Grupo 3): a espinha dorsal do controle

Os triazóis são a classe de fungicidas de maior uso no agronegócio brasileiro, presentes na composição da maioria dos fungicidas para soja, trigo e café. Atuam inibindo a enzima CYP51, responsável pela síntese de ergosterol, componente essencial da membrana celular dos fungos.

A eficácia dos triazóis contra um amplo espectro de patógenos, incluindo ferrugens, oídio e septoriose, explica seu uso dominante. Mas essa dominância tem um custo: a redução de sensibilidade de alguns patógenos, especialmente de Phakopsora pachyrhizi (ferrugem da soja) e Mycosphaerella graminicola (septoriose do trigo), é um fenômeno documentado e crescente que exige rotação com outras classes.

Estrobilurinas (FRAC Grupo 11): eficácia e risco de resistência

As estrobilurinas atuam inibindo a respiração mitocondrial dos fungos, bloqueando a produção de energia celular. São altamente eficazes contra uma ampla gama de patógenos e têm efeito fisiológico adicional sobre as plantas, estimulando o metabolismo do nitrogênio e retardando a senescência foliar.

No entanto, a resistência às estrobilurinas é um dos problemas mais documentados na fitopatologia mundial. A mutação no gene que codifica o sítio de ação (mutação G143A) confere resistência completa ao grupo em diversas espécies de fungos, incluindo Botrytis cinerea e alguns patógenos foliares de cereais. 

O uso isolado de estrobilurinas sem mistura com outros grupos é uma prática de alto risco de resistência.

Carboxamidas (FRAC Grupo 7): o grupo mais moderno

As carboxamidas, incluindo os SDHIs (Succinate Dehydrogenase Inhibitors), representam o desenvolvimento mais recente em fungicidas sistêmicos. Atuam inibindo o complexo II da cadeia respiratória mitocondrial, em sítio diferente das estrobilurinas, o que garante eficácia contra populações já resistentes a esse grupo.

Bixafen, fluxapiroxade e benzovindiflupir são exemplos de carboxamidas presentes em produtos amplamente utilizados na sojicultura brasileira. Apesar de mais recentes, já existem casos documentados de redução de sensibilidade em alguns patógenos europeus, reforçando a necessidade de rotação mesmo com grupos mais novos.

Multissítios (FRAC Grupos M): os guardiões da rotação

Os fungicidas multissítios atuam em múltiplos sítios do metabolismo fúngico simultaneamente, o que torna praticamente impossível o desenvolvimento de resistência por mutação em um único gene. Mancozebe, clorotalonil, folpete e cobre são exemplos desse grupo.

Apesar de terem eficácia menor do que os sítio-específicos quando usados isoladamente, os multissítios são componentes essenciais de qualquer programa de manejo de resistência. 

A inclusão de multissítios nas misturas com triazóis e carboxamidas reduz a pressão seletiva sobre os grupos sítio-específicos e prolonga sua vida útil.

A tabela de grupos FRAC como ferramenta prática

Grupo FRACMecanismo de açãoExemplos de ingredientes ativosRisco de resistência
3Inibição da biossíntese de ergosterolTebuconazol, propiconazol, epoxiconazolMédio a alto
7Inibição da succinato desidrogenaseFluxapiroxade, bixafen, benzovindiflupirMédio
11Inibição da respiração mitocondrialAzoxistrobina, piraclostrobina, trifloxistrobinaAlto
3+7Duplo mecanismoMisturas triazol + carboxamidaMédio
M3Multissítio (contato)Mancozebe, folpeteMuito baixo
M1Multissítio (cobre)Óxido cuproso, hidróxido de cobreMuito baixo

O código do grupo FRAC está obrigatoriamente presente nas embalagens dos produtos registrados no Brasil, o que permite ao técnico ou produtor verificar rapidamente se dois produtos pertencem ao mesmo grupo antes de incluí-los na mesma rotação.

Por que e como fazer a rotação de fungicidas

A lógica da pressão seletiva

Cada aplicação de fungicida elimina os indivíduos suscetíveis da população fúngica e permite que os resistentes sobrevivam e se reproduzam. Quanto mais aplicações do mesmo grupo são feitas, maior é a pressão seletiva e mais rapidamente a proporção de indivíduos resistentes aumenta na população.

A rotação entre grupos com diferentes sítios de ação reduz essa pressão. Um fungo resistente ao grupo 3 pode ser completamente suscetível ao grupo 7, e vice-versa. Ao alternar os grupos, o produtor evita que a resistência a qualquer grupo específico se acumule a ponto de comprometer o controle.

Rotação dentro da safra versus entre safras

A rotação pode ser feita dentro do ciclo da mesma cultura, alternando grupos a cada aplicação, ou entre safras, usando grupos diferentes em ciclos consecutivos. As duas estratégias são complementares e recomendadas pelos programas de manejo de resistência das principais instituições de pesquisa do Brasil.

Uma sequência de aplicações para soja, por exemplo, pode combinar:

  • Primeira aplicação: triazol + estrobilurina + multissítio (V6-V8)
  • Segunda aplicação: carboxamida + triazol + multissítio (R1-R2)
  • Terceira aplicação: triazol + estrobilurina + multissítio (R4-R5)

Essa sequência alterna os grupos sítio-específicos entre aplicações, sempre com a âncora do multissítio que não exerce pressão seletiva significativa.

O portal Mais Agro aprofunda o tema com conteúdo sobre fungicidas multissítios e seu papel no controle de doenças, incluindo orientações sobre como incorporar esses produtos ao programa de manejo de resistência.

Timing de aplicação: o fator que mais impacta a eficácia

A escolha do fungicida e do grupo é importante, mas o momento da aplicação pode ser ainda mais determinante para o resultado do controle. Fungicidas aplicados preventivamente, antes do início da infecção, exigem doses menores e entregam controle mais eficaz do que os mesmos produtos aplicados após o estabelecimento da doença.

O monitoramento sistemático da lavoura, aliado ao uso de modelos de risco baseados em dados climáticos, é o que permite determinar o momento ideal de intervenção. 

Sistemas como o SIGA para ferrugem da soja e os modelos de previsão de oídio e septoriose no trigo são ferramentas disponíveis que ajudam o produtor a tomar essa decisão com base em dados, não em intuição.

O portal Mais Agro reúne orientações práticas sobre como os fungicidas preventivos atuam na cultura da soja e quais são os momentos críticos do ciclo que merecem maior atenção no planejamento das aplicações.

Fungicida certo, na hora certa, com a rotação planejada

O manejo eficaz de doenças fúngicas não é resultado de uma decisão isolada: é a consequência de um programa construído com critério, que considera o histórico da área, as condições climáticas esperadas, o estágio da cultura e o perfil de resistência dos patógenos da região.

Produtores e técnicos que dominam a lógica dos grupos FRAC, planejam a rotação com antecedência e monitoram a eficácia das aplicações estão construindo um sistema de manejo mais resiliente, mais econômico e mais sustentável do que aqueles que escolhem o fungicida pelo preço ou pela tradição de uso.

Sobre o Mais Agro

O Mais Agro é o hub de conteúdo técnico da Syngenta, dedicado a levar informação confiável, análises de mercado, práticas de manejo e tendências agrícolas para produtores, consultores, pesquisadores e toda a cadeia do agronegócio. 

A central de conteúdos reúne materiais exclusivos sobre inovação, sustentabilidade, proteção de cultivos, tecnologias emergentes e desafios do setor. 

Para saber mais, acesse o portal.