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Avanço e Pesquisa

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25/08/2010

Técnica milenar ajuda a recuperar áreas degradadas

A terra preta de índio, processo utilizado pelos indígenas para aumentar a fertilidade do solo, também contribui para mitigar desmatamento na Amazônia.

Uma técnica milenar de manejo da fertilidade do solo, utilizando como ferramentas o machado de pedra e o fogo para queimar resíduos orgânicos e com isso aumentar a fertilidade em solos pobres de nutrientes, vem sendo estudada como alternativa para a recuperação de áreas degradadas na Amazônia. A terra preta de índio, como ficou conhecido o processo, quando associada a tecnologias modernas, também pode contribuir para mitigar o desmatamento, além estimular a prática da agricultura familiar na região.

Na Amazônia, boa parte dos solos é desprovida de nutrientes minerais como fósforo, potássio, cálcio e magnésio. Os índios talvez não soubessem definir esses elementos e a sua importância na composição do solo. Mas sabiam, empiricamente, que precisam fazer algo para aumentar a produção de alimentos. Foi assim que desenvolveram, a partir da queima controlada de resíduos orgânicos em baixas temperaturas (entre 300oC e 400oC), o carvão pirogênico.

Também conhecido como biochar, esse tipo de carvão tinha propriedades físicas e químicas diferentes das do carvão comum e era capaz de corrigir a acidez do solo e ao mesmo tempo aumentar a biodisponibilidade dos nutrientes para as plantas. Com isso, os índios conseguiam aumentar o nível de fertilidade, produziam mais e assim garantiam a sua sobrevivência. O nome terra preta de índio é uma alusão à coloração escura de manchas ainda hoje encontradas em solos da Amazônia.

O potencial de fertilidade dessas terras chamou a atenção de um grupo de cientistas, liderado pelo engenheiro agrônomo Newton Falcão, da Coordenação de Pesquisas em Ciências Agronômicas (CPCA), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O projeto “Terra Preta Nova da Amazônia Central” começou em 2008, mas Falcão estuda as propriedades químicas, físicas e biológicas desses solos de origem antropogênica há pelo menos  oito anos.

Segundo o cientista, depois de muita pesquisa sobre o processo de formação da terra preta de índio, é possível agora estudar como esse tipo de solo pode ser aproveitado para melhorar a qualidade de vida das populações amazônicas. O projeto tem três focos principais: a recuperação de áreas degradadas, a incrementação da agricultura familiar com segurança alimentar e a produção de biochar para estocar carbono na Amazônia.

Sustentabilidade

Atualmente, é possível encontrar pequenos produtores trabalhando nas áreas onde há manchas de terra preta de índio, na região amazônica. A vantagem é que essa técnica, associada a novas tecnologias, pode contribuir para a mitigação do desmatamento. Falcão ressalta que boa parte dos agricultores abandona suas áreas após dois ou no máximo três anos de cultivos com culturas alimentares de ciclo curto, e passa a trabalhar em outra área recém desmatada. Num período de 20 anos, estima-se que ele desmatou de 15 a 20 hectares.

“Se conseguirmos acelerar o processo de formação de terra preta de índio, por meio da aplicação dos conhecimentos tradicionais semelhantes às técnicas aplicadas pelos povos indígenas e um pouco de tecnologia moderna, possibilitaríamos ao pequeno produtor a permanência na mesma área por 10 ou até 15 anos, evitando, com isso, o desmatamento de novas áreas de florestas primárias”, explicou o cientista, que é doutor em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESAQ / USP).

Há vestígios de terra preta de índio em toda a região amazônica, desde os Andes Tropicais (ou Amazônia Andina) até a Ilha de Marajó, no Pará. Por enquanto, o projeto coordenado por Falcão se restringe ao Estado do Amazonas, abrangendo quatro municípios: Presidente Figueiredo, Iranduba, Novo Airão e Manacapuru. Participam cientistas das áreas de solos e nutrição de plantas, etnobotânica e botânica econômica, microbiologia de solos, antropologia e arqueologia.

O maior desafio, segundo Falcão, é a utilização do biochar para estocar carbono na Amazônia. A partir da técnica aplicada pelos índios, os cientistas estudam quais as especies de plantas que podem ser usadas para a produção do carvão “pirogênico” (o biochar é obtido a partir da queima de material vegetal, feita em laboratório). O Inpa é pioneiro nessa técnica, que vem sendo debatida pela comunidade científica internacional por seu potencial no armazenamento de carbono, com vistas à sustentabilidade do planeta.


Fonte: D24am



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