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06/02/2015

Quanto vale a água consumida pela agricultura?

Por Eliseu Alves

Foto ilustrativa
O que dá valor a um bem ou a um insumo é sua escassez. O preço de um bem é dado pelo consumo geral.

 Quando um insumo é abundante, como ar, no sentido que excede a demanda interna e não pode ser exportado ou armazenado, o excedente vale zero, pois não existe ninguém para comprá-lo. Quando pode ser estocado, a estratégia é retirá-lo do mercado. O mercado de bens perecíveis enfrenta este problema, com um agravante, pois dispor da sobra custa caro. Uma das técnicas usadas é entregar a sobra aos transportadores, sem nenhum custo, e eles saem das capitais e vão vender em outras praças, a um preço que cobre o custo de transporte, matando a produção local, não ligada aos grandes mercados.

A água não é exceção. A técnica é armazená-la em grandes represas. Seria muito bom ter um programa de pequenas represas para armazená-la e transferir sua abundância para a época de escassez.

Se há abundância de água numa dada região e ela escoa para algumas grandes represas como é o caso do Rio Grande, que nasce em Minas Gerais, e água das represas é usada para gerar eletricidade e para o consumo urbano, então, água pode tornar se escassa no local onde ela é abundante. Qual é seu preço? É o mesmo que as hidroelétricas pagam, quando captam a água para gerar eletricidade. Ou, então, o que pagam as empresas que abastecem os consumidores urbanos, quando captam a água. Como não pagam nada no momento da captação, o preço da água para agricultura é zero, neste caso. E se as represas estiverem vertendo água, além da quota mínima? Aí não existe escassez, e, portanto, nada há a pagar.

Note-se que, no exemplo, há alternativas de uso para a água, e, assim, nasce o custo de oportunidade. Obviamente, é mais lucrativo vender para quem paga mais. Num bem tão importante como a água, saber quem paga mais é muito complicado. Digamos que a agricultura pague menos. Perderia a competição contra outras alternativas, possivelmente com serias consequências para abastecimento interno e exportações. A água para consumo humano é prioritária. Por isto, as proibições recentes do seu uso para a irrigação. Como consequência, pode haver redução da produção, e, num extremo, fome. Como avaliar isto? O mercado fornece apenas parâmetros, mas a decisão final lhe escapa, por estas e outras razões, para sociedade e, por fim para o governo. Da mesma forma, a cobrança de tarifa na captação é competência do governo que pode se valer de leilões especialmente planejados, o que raramente é praticado.

 É costume argumentar-se que as hidroelétricas devolvem a água para o rio, e, sendo assim, nada têm a pagar. Se a jusante das represas houver consumo humano, e se a produção de eletricidade reduzir a água para consumo humano, caracteriza-se a escassez. Ainda há o fato de que as represas evaporam muita água que não forma nuvens, necessariamente nas regiões que interessam.

Quando inexistem as represas, havendo abundância de água, seu preço para quem for captá-la é zero. Existe um celebrado teorema da teoria econômica que diz que, quando a quantidade disponível de um insumo excede seu uso, seu preço é zero. O teorema apenas capta e, muito bem, o significado de escassez. Porque pagar pelo excedente de um bem que superou o consumo? Quem tiver recursos pode comprar a sobra, desde que o bem não seja perecível, e vender no próximo ano. Isto é que se chama corretamente de especulação. Aí, o conceito de sobra é mal usado. Tem que se incluir a demanda dos especuladores para medir corretamente a sobra.

Frequenta a imprensa notícias de que a agricultura consome 70% da água usada pelo homem. Quanto do ar ela consome? Ninguém fala disto, exatamente porque o preço do ar é zero. Antes de glorificar este tipo de estatística, deveria ser salientado que, na maioria das situações a agricultura não está competindo com outras alternativas e que, nestes casos, consome um bem cujo o preço é zero. Ouço falar que o Brasil é grande exportador de água por ser grande exportador de produtos da agricultura. Ninguém se lembrou de perguntar: quanto vale a água exportada? Na mesma linha de raciocínio se critica a agricultura irrigada, dizendo que ela compete com a geração de energia, o que somente parcialmente, e em algumas situações, é verdade. Cabe perguntar, se fosse o caso, que é mais importante produzir comida ou energia?

Há políticas para lidar com escassez de água que imitam o mercado, como cobrar tarifas mais elevadas dos que consomem acima de um certo padrão e multas para o consumo exagerado. De um modo geral, quando a escassez é crítica, usa-se o racionamento. Por ele, os mais pobres são os mais prejudicados. Também restrições, tais como proibir o uso de água para irrigação, frequentam as agendas dos governantes, embora ineficientes.
Se a escassez de água persistir é melhor cobrar uma tarifa na hora da captação. É a forma mais eficiente de racionamento. Qual é o grande problema desta política? Normalizada a chuva, o governo continuará cobrar a tarifa. Por isto, esta opção é rejeitada.

A argumentação mantém fixa a tecnologia. Há muitas inovações que têm enorme poder de economizar água, em nível de agricultura, como o plantio direto, pequenas represas, cultivares que consomem menos água. Foi descoberto pelo CENARGEM, no café, um gene que aumenta a tolerância à seca, e já se sabe como transferi-lo para outras plantas. Existem equipamentos de irrigação muito eficientes que consomem muito menos água que os em uso. Os irrigantes precisam de financiamento para comprá-los. Que faz a tecnologia? Libertar o homem dos grilhões do mercado e da natureza.O que dá valor a um bem ou a um insumo é sua escassez. O preço de um bem é dado pelo consumo geral.



Fonte: Eliseu Alves é pesquisador e assessor do Presidente da Embrapa.



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Comentário(s) (4)


Junior Ruiz Garcia disse:

15/02/2015 às 20:57

José Hess, você poderia enviar para mim (jrgarcia@estadao.com.br) um texto ou fonte que apresenta a seguinte afirmação: a planta em seu metabolismo consome somente a água necessária pra o seu desenvolvimento, o restante 99% da água é percolado ao solo pelas raízes e devolvido à atmosfera pela evapotranspiração. Grato, Junior.

Ronaldo Trecenti disse:

10/02/2015 às 15:49

Temos que mudar a abordagem equivocada da mídia sobre a questão da produção de alimentos x água: a agricultura não consome água, a agricultura irrigada utiliza 70% da água outorgada para múltiplos usos (incluiu abastecimento urbano, indústria etc.) e devolve para a natureza a maior parte dessa água pela infiltração no solo e evaporação (ciclo hidrológico). Com a adoção de boas práticas agrícolas é capaz de permitir que a água das chuvas infiltre no solo e recarregue o lençol freático e os aquíferos (produtor de água). A competição pelo uso da água com o setor elétrico, é no mínimo desleal e é fundamental esclarecer à sociedade que temos outras fontes para geração de energia, porém, por enquanto, não temos substitutos para os alimentos gerados pela agricultura.

Jose Hess disse:

10/02/2015 às 08:44


Qualquer aluno de ciências agrárias ou mesmo de segundo grau sabe que a planta em seu metabolismo consome somente a água necessária pra o seu desenvolvimento, o restante 99% da água é percolado ao solo pelas raízes e devolvido à atmosfera pela evapo transpiração, então quando se fala que mais de 70% da água é utilizada pela agricultura na irrigação tem de se esclarecer aos leigos sobre isso. E graças ao agronegócio que o Brasil hoje tem caixa para pagar as despesas dos funcionários públicos federais e de muita gente, pois o restante das cadeias produtivas estão falidas.
O povo brasileiro tem de mudar urgente sua ótica nós devemos institucionalmente e politicamente apoiar os que produzem, como é em todos os países do mundo.O custo da água na agricultura não significa nada perante o custo de bilhões que estão tirando da Petrobrás, que tal calcular este custo?

Jose Hess disse:

09/02/2015 às 14:57


Com relação a represas, o que se sabe é que as represas não consomem água, apenas elas passam pelas turbinas e voltam para o rio sem nenhum litro à menos. Só se for por eletrólise, que a água se consome fora disso a água não diminui seu volume é uma questão física. O que acontece que ela diminui a sua potabilidade , mas com os processos e tecnologias existentes praticamente toda água pode ser reaproveitada para o consumo, somente que no Brasil temos de usar mais a engenharia como nos demais países e menos leis e papeis burocratizando esse país. Quem for para o Caribe, e em especial para Curaçao e Aruba, há décadas a água deliciosa que se toma lá provém da dessalinização da água do mar, por que o Brasil não faz isso para abastecer as capitais do nordeste do lado do mar? Existe, gasoduto, oleoduto no Brasil e por que não um aqueduto? Temos nossas universidades e a engenharia brasileira pronta para agir, por que esse governo não faz alguma coisa?

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