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03/08/2015

Geni e o Zepelim Florestal

Assim Caminha a Humanidade (George Steven, 1956) neste Mundo Sem Fim (Ken Follet, 2007)


Por Sebastião Renato Valverde

Desde que se entende por gente tem sempre uns “espertinhos” querendo tirar vantagem alheia. Infelizmente, este perfil “gersoniano” está impregnado no DNA de muitas pessoas. Parece que lutar contra é o mesmo que “malhar ferro frio”, dado que é o trilho da evolução escolhido pela humanidade e a essência do capitalismo.

Certo ou errado, irreversivelmente este é o trem da vida que incita o Bem-Estar e o progresso tecnológico, mas que se descarrilha e gera as desigualdades e, consequentemente, suas mazelas sociais atreladas.

Sempre que a humanidade muda de um cenário - em que não se tem mais onde evoluir - para outro, para alguém ficar melhor, outrem há de perder. Identicamente, é duro de enfrentar este Pareto Ótimo. Desde que haja um revezamento nesta relação ganha-perde, ou seja, quem perde hoje, ganha amanhã e vice-versa, sem problema.

Entretanto, esta alternância não é a realidade, pelo menos no meio rural. No agronegócio e, sobretudo o florestal, o segmento que perde só tem um endereço, o do produtor.  Tem sido assim desde a ditadura. Os proprietários têm arcado com um ônus altíssimo para produzir fibras e alimentos no Brasil. Além de penar com as incertezas do clima e do mercado e de tentar driblar a Lei de Murphy, eles têm sido culpados por toda desgraça ambiental. Virou a Geni do campo. São apedrejados pelos ambientalistas urbanoides, os mesmos que fingem de “mortos” das moléstias urbanas sob seus olhos.

É desestimulador a profissão de produtor. A partir de 2008, quando deflagrou a crise internacional, os produtores florestais têm convivido com uma realidade sinistra. Quando encontra mercado para seus produtos, o preço é vil. Iludido, acreditou que no futuro faltaria madeira e demais produtos florestais, resta-lhe, atualmente, frustrações.

Quantos, ainda no ventre maternal ouviram que seringueira e plantações florestais são bons negócios, excelentes investimentos no longo prazo? Pois bem, o futuro chegou, já morreu e essa previsão não se concretiza para os produtores. Desiludidos com o mercado, todos sabem que, se nada for feito, o futuro do futuro também não se realizará.

Mercado é mercado. Sempre o comprador quer pagar menos que o valor ofertado por quem produz e, este, vender por mais que aquele quer pagar. Assim foi, é e sempre será. Em que pese este corolário, não se quer defender a reserva de mercado, mas, menos ainda aceitar que o produtor seja o único a suportar a parte péssima do “ótimo de Pareto”.

Como o mercado florestal possui características próprias que o difere do das commodities agrícolas, principalmente as negociadas em bolsa, tem-se no caso florestal um mercado altamente concentrado devido à verticalização das indústrias florestais que produzem, desde a madeira até o produto industrial. Ao revés, as agroindústrias que não possuem terras, compram matérias-primas nos mercados, seja spot ou de contrato futuro.

No entanto, por circunstâncias legais e conjunturais de 1960 a 1980, as indústrias florestais não tiveram escolha, a não ser se verticalizar para proteger seu abastecimento, trazendo consequências para o campo. Elas têm que buscar na parceria empresa-produtor seja via fomento, arrendamento ou contrato futuro, uma alternativa a esta concentração que cria distorções na comercialização e dificulta a competição perfeita.

Do contrário, com o modelo de governança que ai está, não há e nunca haverá harmonia na comercialização dos produtos florestais. Quando não é um monopólio, é um oligopólio, mais, corretamente, oligopsônico. Se há aumento nos preços dos produtos industriais, estes não são repassados ao insumo florestal. Quando sim, após meses de defasagem. Se há queda, é descontada imediatamente no valor dele.

Quando o problema não é a concentração do mercado, é a desorganização dos produtores. Se a “Lei de Gerson” atenta contra os produtores organizados, quiçá nos desorganizados. As garras da globalização não poupam nem os segmentos fortes.  

O fato é que, se indústrias e produtores mudarem a compostura e passarem a agir de forma transparente e organizada, todos se beneficiam, pois a competitividade florestal brasileira é forte. É repugnante a situação em que o produtor é sempre o perdedor.

Não é moralmente justo uma empresa com margem de lucro significativa, usurpar do produtor florestal pagando pela matéria-prima um valor abaixo do preço de nivelamento. Indústrias do ramo de celulose, ferroligas e painéis de madeira possuem todas as condições para constituir um modelo de governança focado na parceria robusta com o produtor. Até mesmo as siderúrgicas integradas tem esta primazia. Diferente das guseiras independentes que não se desenvolveram culturalmente para tal.

Talvez, se houvesse uma relação coesa entre as guseiras e o produtor de carvão, ambos suportariam melhor os efeitos da crise global e o País estaria numa situação diferente da atual em que não se tem, sequer, 35% dos altos-fornos operando. Parceria tem que ser de “mão dupla”. Fornecedor e consumidor tem que se entender. O que não pode é um tentar tirar proveito do outro e, no final, todos se lascam.

Vide o mercado da borracha natural. Qual a justificativa para o preço aviltado dela, haja vista que o Brasil importa mais de 70% da sua demanda, a oferta internacional encontra-se estagnada, o preço dos pneumáticos elevados e o custo da borracha é insignificante no do pneu? Era para estar melhor. Há algo de estranho nesta transação.

Sinal disto é a reação que o mercado exerce na Política de Garantia de Preço Mínimo (PGPM). Até ela, o preço do coágulo oscilava em R$2,00/kg. Bastou o governo implantá-la, assegurando o complemento do preço toda vez que ele caísse de R$2,00/kg, que o mercado, coincidentemente, passou a pagar abaixo deste valor. Nas principais regiões produtoras ele está R$1,55/kg. Há um jogo baixo que força os produtores a buscarem, após uma romaria amarga e burocrática nos órgãos oficiais, o complemento.
 
Tudo bem que o País é grande e que há espaço para todos que tem interesse em produzir no campo, assim o é para os Fundos de Investimentos que tem assumido, via contrato de parceria com as indústrias, o papel de produtor de madeira. Não tenha dúvida que o futuro reserva graves atritos sociais (Zepelim) sobre esta concentração de terra e o alijamento dos produtores tradicionais na cadeia produtiva. Isto já ocorreu de 1990 à 2000 quando as ONGs e os movimentos sociais elegeram a monocultura florestal como vilã etno-ambiental. Naquela época, o setor florestal suplicou ajuda dos produtores. Não dá para viver de “... pedras..., bostas... e... beijos...”. Também já passou da hora dos produtores deixarem de ser Geni e se organizarem em associações efetivas.


Fonte: www.celuloseonline.com.br



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