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03/03/2011

A febre das plantações florestais sob a letargia do ferro-gusa

Artigo escrito por Sebastião Renato Valverde.

Independentemente da crise, sempre defendi o investimento na eucaliptocultura em regiões de elevado potencial de demanda de madeira. Da mesma forma, sempre manifestei certa preocupação quando se trata de regiões onde a destinação mais viável para ela seria o carvão vegetal, transportável a maiores distâncias.

Tanto é assim que, em 2008, antes da crise se emplacar no País, escrevi a matéria “Efeito Carvão Vegetal no Comportamento do Mercado da Madeira de Eucalipto no Brasil” expondo a importância do carvão para a viabilidade das plantações florestais que se lastravam em quase todos os estados. Preocupava-me o fato de muitos deles não apresentarem condições de sustentar este tipo de investimento, justamente por não haver indústria florestal que consumisse madeira em grande escala. Como se sabe, a característica deste produto é de não se viabilizar a longas distâncias. Sempre deixei claro esta limitação das commodities florestais em relação ao transporte mais que qualquer commodity agrícola dado o coeficiente preço - peso (madeira é pesada e barata).

Dizia que o carvão vegetal, a não ser que fosse substituído pelo mineral, exerceria o papel de sustentar este mercado pela maior flexibilidade no transporte. Infelizmente, a realidade atual mostra que aquela preocupação está mais forte do que nunca, não pelo efeito substituição, mas pela perda de competitividade do ferro-gusa brasileiro frente ao internacional devida as questões cambiais, de custos e organizacionais.

Para uma atividade complexa e de longo prazo o investimento em reflorestamento requer, no presente e no futuro, garantias de bons preços e mercados. Sendo assim, preocupa-me o oportunismo de alguns em estimular o reflorestamento à revelia usando de artifícios irreais como preços exagerados da madeira e gêneros florestais sem lastro comercial. Não que ele seja um mau negócio, mas quando se trata de regiões sem demanda aparente o risco de insucesso é muito alto, o que é diferente de quem tem um grande consumidor por perto, por exemplo indústria de celulose, apesar do poder de player dela que lhe confere vantagem na formação do preço da madeira. Mesmo os produtores próximos de indústrias de celulose serão afetados pela crise de demanda do carvão por parte do ferro-gusa em razão do aumento da oferta de madeira que forçará queda generalizada no seu preço.

Desta forma, sabendo que o consumo de madeira por parte das serrarias, usinas de tratamento, construção civil e lenha é insignificante à oferta de madeira de grandes plantios, minha maior preocupação com a expansão das plantações florestais é com a crise do ferro-gusa a carvão vegetal. Apesar do consumo interno de produtos siderúrgicos em alta em virtude das obras do PAC, da Copa e do crescimento econômico do País, as guseiras independentes estão em estágio terminal apesar de algumas reações súbitas.

A dificuldade de recuperação econômica dos países do G8 reflete diretamente no gusa brasileiro. O espaço da lenta recuperação vem sendo ocupado pelo gusa dos países concorrentes. Perdemos nossos tradicionais consumidores para a Ucrânia e outros países do leste europeu. Pior que as perspectivas são desalentadoras.

O mercado de carvão não pode ficar refém da instabilidade do ferro-gusa. Na competitividade desse mercado o que importa é o menor custo independentemente do processo produtivo. Nossos concorrentes não têm a menor preocupação com as questões ambientais, usam carvão mineral e não possuem uma política ambiental tão rigorosa quanto a nossa. Nem mesmo com as questões sociais, pois pagam salários de escravo sem compromissos trabalhistas. Infelizmente, problemas culturais históricos levaram o segmento de gusa independente a uma certa desorganização. Hoje ele é refém dos fornecedores – as grandes mineradoras -, e de seus compradores – as grandes siderúrgicas – devido ao seu insignificante poder de barganha.

É claro que não vamos defender o mesmo comportamento irresponsável adotado nos países concorrentes, mas temos gorduras burocráticas que podem ser queimadas. Apenas como exemplo podemos citar: os onerosos processos de licenciamento ambiental para as plantações florestais em áreas antropizadas, as exigências de Reserva Legal, os absurdos das APP em topos de morro e as altas cargas tributárias.

Infelizmente o mundo não valoriza o fato de que o nosso gusa é o único feito com carvão vegetal ao contrario do restante com coque mineral mais impactante e mais injusto. O marketing sobre o nosso gusa verde é apenas uma retórica. O ambientalismo internacional - de via única e financiado pelas indústrias dos países ricos - não se interessa pelo gusa verde produzido num país pobre. Ao contrário da recíproca.

Dado a falência do nosso ferro-gusa a carvão vegetal, o Brasil e Minas Gerais precisam adotar uma política urgente que contorne esta possibilidade de falta de demanda de madeira destes produtores que plantaram florestas incentivados pelo Poder Público. Uma das soluções passa pela organização da cadeia produtiva do gusa e pelo fortalecimento dos outros segmentos consumidores de carvão vegetal em grande escala. Entre estes estão as siderúrgicas que produzem as ferroligas, o silício-metálico e as ligas especiais (manganês, silício, cromo, nióbio, níquel, entre outros). Além disso, o Poder Público deve também estimular investimentos em novos projetos de biomassa (Termo-elétricas) e de produção de painéis de madeira.

Falo nisto acreditando que o diferencial das nossas ligas seja o uso do carvão vegetal que confere qualidades a elas em relação ao carvão mineral proporcionando, assim, vantagens num mercado onde o Brasil tem o maior potencial do mundo. Lógico que essas alternativas muito dificilmente alcançariam o volume consumido pelas guseiras, mas amenizaria o vácuo causado por esse segmento.

Cabe ao Poder Publico sair da retórica e incentivar estes empresários que agregam valor ao minério e ao carvão vegetal. Minas não pode se omitir do papel de liderar uma cruzada a favor do carvão, pois do contrario, muitos dos produtores vão se frustrar com este investimento. Apesar do menor consumo de carvão em relação ao gusa, porém há muito onde crescer. Um estudo mostra que, sem a adoção de uma política especial, o consumo destas ligas tende a triplicar até 2030 quando simulado um aumento de 70% no mercado consumidor interno e 30% no externo. Com uma política especial, espera-se um aumento que garanta uma demanda de carvão próxima do que se consome atualmente.

O carvão vegetal, ao contrário do estigma que sofre, é uma das principais commodities florestais do Brasil e a principal de Minas Gerais. O papel que ele desenvolve no meio rural é de extrema importância social, econômica e ambiental. Lamentavelmente a sua imagem foi prejudicada pela atitude desonesta de alguns. Embora tenha superado tantas adversidades, este principal vetor da viabilidade econômica das plantações florestais das regiões sudeste, nordeste e centro-oeste está na UTI.

Desta forma, vemos hoje que produzir carvão não é pecado, mas sim solução, principalmente para a conservação das florestas nativas. Talvez este papel de salvador da lavoura incomode alguns céticos que tem declarado Guerra permanente contra ele. Eis que agora terão que se redimir, pois ao contrário de vilão, o carvão é, isto sim, um herói. Se ligas Brasil.

 


Fonte: Painel Florestal



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Comentário(s) (8)


Pedro Costa disse:

09/03/2011 às 17:28

Prezado Clayton:

Também sou proprietário rural onde a reserva legal é de 35%.
Também não estou contente com a "desapropriação" sem indenização, além de não nos pagar pelos benefícios que a reserva legal proporciona aos poluidores moradores das cidades ainda nos deixaram a obrigação de cuidar das reservas.
Hoje, 80% da população brasileira vive nas cidades. Isso quer dizer que 80% dos votos estão nas cidades.
A população urbana acha que os responsavéis pelo preservação do meio-ambiente somos nós que moramos no campo. Eles não se sentem culpados pela poluição que produzem e nem se sentem obrigados a pagar pelos serviços florestais que desfrutam.
Os outros países preservam em parques nacionais de propriedade e responsabilidade de cuidados do estado. Reservas pequenas, toda fragmentada como as nossas não preservam bio-diversidade, é pura ilusão mas eles acreditam.
Quem fez este modelo de reserva legal foi o economista Roberto Campos que redigiu o Estatuto da Terra e denominou de "reforma agrária capitalista" em 1965, um ano após o golpe militar. Os propietários só aceitaram esta "desapropiação gratuita" porque não tinha como reagir. Era a época da ditadura militar.
E nós da amazônia legal ainda temos que suportar a fama de desmatadores. Apenas 1% dos desmatamentos ilegais estão em terras legalizadas. 90% dos desmatamentos ilegais ocorrem em terras públicas que o governo não tem condições de vigiar e aí transferem a culpa para nós.

Atualmente estamos sob a "ditadura da opinião pública urbana". Como os proprietários rurais de 1965, já conformei.

Pedro Costa disse:

09/03/2011 às 16:36

Prezado Ricado Elói:
Sou plenamente a favor da exigência legal da RL e APPs. Acho apenas que o objetivo que determinou a instituição da reserva legal, para disponibilizar madeira de uso na propriedade rural, condicionou essas pequenas reservas em tabuleiro de xadrez. A preservação da bio-diversidade requere reservas maiores. Sabe-se que quanto maior a reserva mais a biodiversidade é preservada. Vejo propriedade de 02 ha com 20% de RL. É práticamente inútil. Acho que deveríamos caminhar no sentido mantermos os percentuais preconizados na lei mas agregando as áreas.

clayton disse:

09/03/2011 às 16:35

Penso que a Reserva Legal numa propriedade serve realmente a biodiversidade, concordamos nisto. Mas em nenhum outro setor de atividade você adquire um potencial (100%) mas é obrigado a utilizar somente 80% dele sendo que os 20% restantes serão Reserva Legal. Bem, nem poderia ser Reserva Ilegal... Se um comerciante, um industrial, ou outra qualquer atividade econômica se propõe a operar a 100% um negócio, logo é festejado, exceto a agricultura. Porque somente no Brasil existe a exigência da RL? E os demais concorrentes internacionais, porque não as criam também? E, principalmente, porque o proprietário não é indenizado pelo não uso de uma fração de sua propriedade (20% dela) para constituir a Reserva Legal? Porque não se cria uma renda-indenização anual paga aos proprietarios pelo não uso da RL? Porque todos entendem que é DEVER dos proprietarios dispensar esta fração sem que não haja, por exemplo, uma contrapartida numa RESERVA LEGAR URBANA? E aí tomaríamos 20% de todos os terrenos, lotes, casas, apartamentos,... e plantaríamos árvores (mas não indenizariamos ninguém)? E os micro proprietarios, que tem 5, 10, 20, 30 hectares que não podem (NÃO PODEM) dispensar esses 20% pois isto significa sua margem de lucro para sobrevivência? Es estes microfundios são milhares de propriedades Brasil afora.
Parece que fazer doação com dinheiro dos outros está sendo amplamente divulgado pelas ONGS que dizem se preocupar com o meio ambiente sem se preocupar com o social e sendo aceito pela população em geral (urbana). Desde que feito com dinheiro ou na pripriedades dos outros. No meu não!

clayton disse:

09/03/2011 às 16:14

Junte-se ao exposto a dificuldade para a entrada no mercado de créditos de carbono de propriedades pequenas que plantam eucalipto. Uma deformidade.

Ricardo Elói de Araújo disse:

09/03/2011 às 09:54

Eu não concordo com o fato do Professor Valverde considerar como "gordura burocrática" a exigência da reserva legal. Se a exigência da reserva legal não for colocada como condição sine qua non para a concessão de licenças, financiamentos e certificados, quando estas áreas serão criadas e preservadas? As reservas legais são de primordial importância na necessária conservação da biodiversidade e sua instituição deve se dar por exigência legal e como condição para obtenção de licenças, financiamentos e certificados, pois os brasileiros, em sua maioria, ainda não atingiram um nível de evolução e conscientização ambiental que provoque a tomada de atitudes espontâneas a favor da conservação da biodiversidade. E mesmo que um dia atinjamos este nível de evolução, a regulamentação da reserva legal, através de políticas públicas a serem seguidas por força de lei, continuará sendo necessária até mesmo por uma questão de justiça, visto que estabelece parâmetros a serem adotados a situações específicas, evitando que alguns façam menos que outros.

LOUIS SIMMELINK disse:

08/03/2011 às 10:01

PREZADO SEBASTIÃO, PARABENS PELA MATERIA.

Estamos experimentando uma nova alternativa para produção de carbono fixo ( materia prima derivada do carvão de coco babaçu). Entre as vantagens podemos citar a ausencia de necessidade de fomento, uma vez que a matriz energétia é nativa e temos grande disponibilidae da mesma em grande parte do território nacional, capaz de gerar esta energia em condições de limpeza e renovabilidade. Realizamos estudos de viabilidade do produto e também esbarramos no item transporte que apresenta problemas serissimos, problemas estes que também são ponderados por voce.
De qualquer forma as enormes vantagens desta alternativa energética se sobrepõe a outros tipos de energia necessárias na garantia de produção siderurgica.
Gostaria se possivel, trocarmos mais infomrações a respeito.
Parbens novamente.
abraços
louis

Ademir rostirolla disse:

08/03/2011 às 05:29

Sebastião, sua preocupação é muito importante, principalmente em chamar a atenção para quem defende as atividades, seja industrial ou agricola, que tenham sustentabilidade.
A diplomacia Brasileira deve sim acordar e fazer pressão no mercado internacional quanto ao ferro-gusa e as ligas produzidas com coque mineral, valorisando a nossa produção com carvão vegetal.
Parabens pelo Artigo muito bem posicionado.

Herculano Araújo Costa disse:

05/03/2011 às 18:55

Considerando a importância definitiva da distância dos centros consumidores e meios de transportes nos projetos florestais, comento em relação a região norte do país.

A ferrovia Norte-Sul está praticamente concluída do Porto do Itaqui-MA até Anápolis-GO e já iniciou-se a construção do trecho que liga o estado de Goiás ao estado de São Paulo na divisa com o MS.

A ferrovia Leste-Oeste, em construção, a partir do porto de Ilhéus-BA cruzará com a ferrovia Norte-Sul próximo a divisa entre Goiás e Tocantins no centro geográfico do país.

Estes eixos ferroviários estão sendo construídos em bitola larga podendo transitar trens pesados, composições de até aproximadamente 300 vagões, velocidade de 80 km horários em direção aos portos do norte, Belém-PA e São Luís-MA, aonde atracam navios de até 400 mil toneladas.

O porto de Santos está sobecarregado e deverá tornar-se um porto industrial e de cargas com alto valor agregado.

Produtos de baixo valor agregado como minério de ferro, soja, carne e celulose deverão ser exportados pelos portos do norte.

O frete marítimo em direção a China, EUA e Europa será sempre mais barato a partir dos portos do norte, devido estarem 3.000 km mais próximos destes centos consumidores.

Observem as fábricas em construção da Suzano em Imperatriz-MA, Teresina-PI, Palmeiras-PI e a imensa base florestal que a GMR está implantando no sudeste do Tocantins, dentre outros investimentos florestais na região norte e nordeste.

Do porto fluvial de Praia Norte, no estado de Tocantins, em construção com capital privado de uma empresa alemã que também atua na área de energia renovável (biomassa), pela hidrovia Araguaia-Tocantins alcança o porto de Belém-PA.

O Porto de Praia Norte funcionará como uma extensão da Zona Franca de Manaus e associado a ferrovia Norte-Sul reduzirá em mais da metade o valor do frete e tempo de entrega em relação a região sudeste.


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