Facebook Twitter RSS

Notícia

Versão para impressão
A-
A+


25/02/2016

Florestal: apesar da crise econômica, em Minas há oásis de prosperidade

(Reprodução)
 As contas públicas aparecem em grandes números no iPad do prefeito de Belo Oriente, Pietro Chaves. Ele está chegando ao fim do terceiro mandato e domina quase de cor o orçamento. Fazendo alguns cálculos rápidos, confirma que nos últimos anos quase nada mudou na contabilidade.
Perto de 80% dos R$ 65 milhões arrecadados pela cidade em 2015 vêm de uma única receita: a Cenibra, gigante da celulose e uma das maiores produtoras do mundo da matéria-prima do papel. Graças à boa fase da companhia, Belo Oriente, por sorte, não viu sua arrecadação despencar no último ano, como ocorreu com municípios vizinhos e com o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto da produção de bens e serviços) do país.
Cidades que durante a crise ainda surfam na boa fase das empresas se transformam em espécie de oásis de uma região, no entanto, a falta de planejamento de um futuro independente é o maior risco. Este é o tema da segunda reportagem da série Cidades Dependentes que o Estado de Minas publica desde ontem.
Ao lado de Belo Oriente, no entanto, municípios do Vale do Aço sentem os efeitos da crise das indústrias siderúrgicas e da mineração, ante a queda dos preços das commodities (produtos agrícolas e minerais cotados no mercado internacional), como Ipatinga, que abriga a Usiminas; São Gonçalo do Rio Abaixo e Itabira, onde a mineradora Vale mantém importantes jazidas de ferro.
Em Belo Oriente, é fácil perceber que a Cenibra, referência para uma geração na década de 70, continua a ser a meta de jovens, quase como única opção, se quiserem permanecer em sua cidade natal. Esse é o caso de Maria Rosa Vieira, de 35 anos, que trabalha no viveiro da Cenibra há 12 anos. “Comecei como auxiliar de viveiros e fui promovida a auxiliar de processos.”
A empresa produtora de celulose de eucalipto se beneficia da alta do dólar, já que mais de 90% de sua produção são exportados. Desde a década de 70, quando se instalou na região, a companhia continua sendo, na definição do governo municipal, de empresários e moradores da pequena cidade de 24 mil habitantes, a galinha dos ovos de ouro, analogia à fábula de Esopo, o contador de histórias da Grécia antiga, que não poderia ser mais real.
A economia de Belo Oriente se divide entre os empregos gerados pela prefeitura e a fábrica. Quatro décadas depois da chegada da Cenibra ao Vale do Rio Doce, ainda não há diversificação no horizonte. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, responsável por fomentar e pensar ações estratégicas, foi criada no município, mas logo depois escolhida para ser extinta em um corte para reduzir “gastos”, como se assim o fosse, públicos.
Polêmica reação
Há outros casos conhecidos em Minas de cidades ancoradas por uma única atividade, como São João Nepomuceno, na Zona da Mata, e Nova Serrana, no Centro-Oeste, que, diferentemente de Belo Oriente, enfrentaram crises que as fizeram dar a volta por cima em determinados períodos. A indústria do vestuário de São João Nepomuceno se viu obrigada a renascer no fim dos anos 90, quando sofreu com o fechamento da rede varejista Mesbla, até entãodestino de toda a produção.
As empresas locais investiram na qualificação de empregados e da gestão do negócio no começo de 2000, num projeto conjunto com a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). De simples terceirizadas, passaram a desenvolver o design e coleções. Na indústria de calçados de Nova Serrana, o trabalho foi também intenso nessa direção, inclusive como reação ao avanço do calçado chinês no varejo brasileiro. As empresas do setor começaram a colher os frutos da iniciativa em 2011, com a diversificação dos clientes, atingindo mercados do Nordeste e Sul do país.
A especialização de uma economia ou local em determinado produto ou serviço não consiste num mal em si e buscar a diversidade também pode ser arriscado, na visão do economista Sérgio Luís Guerra Xavier, da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). Ele provoca a polêmica ao indagar o que seria de determinados municípios se não houvesse a grande empresa ou atividade que eles abrigam.
“Elas (as empresas) se estabelecem e crescem por uma série de fatores e às vezes por uma vocação do local. Encontrar formas de diversificar é arriscado também porque não necessariamente temos o conhecimento e a capacidade de prever o que ocorrerá no futuro”, afirma. Uma boa saída, na visão de Sérgio Xavier, estaria num esforço conjunto de institutos de pesquisa, desenvolvimento e das universidades de criar interação maior com a indústria em favor da sofisticação tecnológica e inovação de produtos. “As cidades ganhariam e isso não seria necessariamente um ato de diversificar a economia. Com recursos gastos em tecnologia e aumento da produtividade, naturalmente as oportunidades surgiriam nessas cidades”, observa o economista da Fiemg.
Na região de Belo Oriente, segundo o vice-presidente da Cenibra, Naohiro Doi, a empresa estende atuação por um raio de mais de 50 municípios e mantém 10 mil empregos. “A Cenibra faz o máximo possível pela região, tem diversos projetos e contribui pagando os impostos, cabe à gestão municipal decidir a melhor forma de investi-los”, diz o executivo.
Ar e sustento de gerações
Com a tragédia socioambiental de Mariana, que tirou a vida do Rio Doce, depois do rompimento de Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, as atividades da Cenibra em Belo Oriente foram paralisadas por quase 30 dias, já que a lama comprometeu enormemente a captação de água. A parada causou quase que um pânico na região, dependente dos bons negócios gerados pela celulose.
Belo Oriente respira a empresa, mas muitos acreditam que o potencial da cidade é pouco explorado, o que aprofunda e agrava a dependência. Morador do município, José Geraldo Dutra, 55 anos, teve o seu primeiro emprego na Cenibra. Lá trabalhou dos 15 anos até a aposentadoria. Ao se desligar, com outros dois colegas de trabalho, decidiu montar uma pequena empresa para dar manutenção às máquinas da companhia.
Há 16 anos, o negócio começou pequeno, com 4 funcionários e R$ 10 mil de investimento para cada sócio. Hoje, a GNV emprega 160 funcionários e é uma empresa próspera, com prestação de serviços em vários estados do país. Geraldo se ressente de que, na cidade onde nasceu, quase não existam exemplos locais, como o seu. “Existem muitas possibilidades para fomentar a prestação de serviços. Belo Oriente perde também a oportunidade de diversificar sua economia com atividades que exigem pouco espaço. Um exemplo é a produção de hortifrúti”, sugere.
Daniel Figueiredo, 20, começou como jovem aprendiz e ficar na Cenibra é sua meta. Ele vê a fábrica como melhor opção para quem mora na vizinha Coronel Fabriciano. Seu pai trabalha há vários anos na empresa e seu avô se aposentou lá. “Quero crescer aqui. Me lembro da Cenibra desde a minha infância, quando recebia o material escolar, nas conversas durante o jantar.”
Pelo que os investimentos indicam, a dependência de 40 anos deve permanecer. O prefeito de Belo Oriente diz que está investindo na educação para que a mão de obra local seja mais bem aproveitada pela fábrica. Segundo ele a arrecadação está bem empregada na remuneração de professores e em investimentos para a educação fundamental. Além disso, o executivo municipal diz que parte do orçamento é comprometido com o pagamento da dívida pública, e explica que, por enquanto, não há ações com foco em atrair empresas de outros segmentos para a cidade.
Pedra no caminho
A lição da diversidade valeu para os negócios de um nato empreendedor de Jeceaba, Marcelo Jorge Dias, de 45 anos, que percebeu a oportunidade de investir na cidade durante os bons ventos da construção da siderúrgica dos grupos Vallourec e Sumitomo. Nascido e criado no município, começou há três anos a adaptar um imóvel de três andares para abrigar a pousada, que, hoje, conta com 21 quartos.
No mesmo prédio, ele inaugurou um restaurante em 2012, criando o Hotel e Restaurante Dias, além de trabalhar no ramo de transporte. Com a crise, o movimento enfraqueceu, mas ele não desistiu dos planos e equilibra os resultados, se aproveitando do desempenho eventualmente melhor de um negócio em relação ao outro. “Se a empresa (a siderúrgica VSB) alavanca 70% do comércio de Jeceaba, sem ela o comércio não teria se desenvolvido. Hoje temos lojas de celular, mercearias, bares e academia. A cidade ganhou muito e o padrão de consumo melhorou. Sou do tempo em que não se comia pizza aqui, só salgadinhos em poucos bares”.
Quem conheceu a magazine Mesbla (foto) presenciou um dos maiores casos de efeito dominó na economia. Nos tempos áureos da empresa, a pequena cidade de São João Nepomuceno, na Zona da Mata mineira, chegou a ser considerada uma espécie de grande facção com endereço único.
A Mesbla comprava praticamente toda a produção do município, que foi quase à bancarrota quando a magazine entrou em concordata (hoje instrumento da recuperação judicial). O pedido foi feito à Justiça do Rio de Janeiro, então sede da companhia, em outubro de 1997, envolvendo dívidas de R$ 930 milhões com o fisco, estados, União e cerca de 2 mil fornecedores. A falência foi inevitável em julho de 1999 e em agosto a última loja fecharia as portas em Niterói (RJ).


Fonte: Correio Braziliense / Adaptado por CeluloseOnline



Publicidade


Deixe seu comentário no espaço abaixo ou clique aqui e fale conosco.


Nome: Email (não aparecerá no site):




Comentário(s) (0)


CIFlorestas disse:

19/03/2019 às 16:55

Nenhum comentário enviado até o momento.

Novidades do Site


Quer divulgar sua empresa ou está buscando uma empresa florestal?

As mais lidas


Pensamento

A melhor maneira de realizar os seus sonhos é acordar.
Paul Valéry

Vídeo

Bureau de Inteligência

Análise Conjuntural
Editais
Produções Técnicas

Patentes
Cartilha Florestal
Legislação



Publicidade

Mercado

Cotações
Câmbio
Mapa Empresarial


Enquete

O que você acha da implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR)?

Trará benefícios aos produtores rurais
Trará benefícios ao meio ambiente
Trará benefícios apenas para o governo
Trará benefícios aos produtores rurais, ao meio ambiente e ao governo
Não muda a situação dos produtores rurais, nem do meio ambiente

Receba no seu email

Análise Conjuntural

Estudo e análise de especialista sobre o mercado de florestas.

Newsletter

Receba as novidades do setor de florestas no seu email.

Nuvem de Tags


998 visitas nesta página

Polo de Excelência em Florestas

Parceiros

AMS  |   ECOTECA DIGITAL  |   EMBRAPA FLORESTAS  |   EPAMIG  |   FAEMG  |   INTERSIND  |   LARF  |   MAIS FLORESTAS  |   MAPA  |   SEAPA  |   SEBRAE  |   SECTES  |   SEDE  |   SEMAD  |   SIF  |   UFLA  |   UFV  |   UFVJM  |   UNIFEMM  |  

Colaboradores

ACELERADORA DE  |   AGROBASE   |   AGROMUNDO  |   APABOR  |   BRACELPA  |   CIENTEC  |   FAPEMIG  |   FINEP  |   IEF  |   LATEKS  |   PAINEL FLORESTAL  |   TRATALIPTO  |   UFV JR. FLORESTAL  |  
Desenvolvido por Ronnan del Rey